quinta-feira, 29 de março de 2012

História do Omoloko
Um dos objetivos deste site é tentar
construir, contando com a ajuda dos visitantes interessados, a história do Omoloko. Por isso, pedimos a colaboração de todos os
praticantes e simpatizantes desta religião, bem como de pessoas que identifiquem
nos personagens citados antepassados ou conhecidos seus, e ainda de estudiosos e
pesquisadores, para que nos visitem e deixem-nos suas contribuições, que serão
de grande valia, pois, na medida do possível, serão agregadas à nossa história.
Desde já agradecemos e nos dispomos para qualquer contato, convidando todos
a participar desta obra.
Introdução
Segundo nosso entendimento, o Omoloko
começou a existir como uma das variantes de religião afro-brasileira que passou
a ser praticada no Brasil a partir de algum tempo no passado, depois da chegada
dos escravos negros. Provavelmente de maneira precária no início, pela falta de
liberdade dos escravos para qualquer tipo de organização, mas, com o decorrer do
tempo e com as leis que foram aos poucos mudando as condições de vida dessas
pessoas, de maneira mais organizada e completa – e o Omoloko, nesse particular, em nada difere das outras
variantes religiosas afro-brasileiras. O que o torna particular é que ele se
estruturou inteiramente no Brasil, tendo influência de diversos rituais
religiosos africanos, principalmente os dos povos que vieram de regiões que hoje
são o Congo, Angola, Moçambique, Nigéria, Benin, Camarões – e, portanto,
diferente dos Candomblés, por exemplo os de origem
Yoruba, que ainda hoje guardam forte predominância de
influência de sua região de origem, e aqui se organizaram obedecendo a um padrão religioso e cultural já
preestabelecido nessas origens.
O Omoloko fazia parte do que se
chamava, nos fins do século XIX e início do século XX, de Makumba, no Rio de Janeiro; segundo os estudiosos, também a
Makumba se originou de diversas procedências, conforme
a influência de suas regiões de origem na África; assim, existia a Makumba Mina, a Rebolo, a Cabinda,
a Congo, etc.
O Omoloko organizou-se
majoritariamente na Zona da Mata em Minas Gerais, no estado do Rio de Janeiro,
no nordeste do estado de São Paulo e em parte do Espírito Santo; o nome é Yoruba e existem várias opiniões a respeito de seu
significado. Uns dizem que significa "filhos do tempo", porque no início, devido
à falta de recursos, seus adeptos praticavam-no ao ar livre, ou debaixo das
árvores, ou debaixo das árvores chamadas Iroko. Outros
atribuem à palavra sentido mais literal e abrangente, como "filhos da fazenda",
ou mesmo "filhos da roça", designando os negros vindo do meio rural e que
professavam tal religião, haja vista serem muitas dessas organizações
estabelecidas mesmo nas roças, ou em áreas afastadas das cidades.
O Omoloko praticado por nós foi
instituído por uma escrava, nascida na África, que no nosso meio ficou conhecida
como Maria Batayọ.
História de Batayọ
Maria Batayọ nasceu por volta de 1.797
na África. Veio com vinte anos como escrava para o Brasil, para trabalhar numa
fazendo do estado do Rio de Janeiro. Foi embarcada no Forte da Mina e tinha
procedência Mina Je San,
segundo uma das versões; outra versão conta que Batayọ
era uma negra Bini, que são os habitantes da região da
cidade de Benin na Nigéria, povo que reivindica para si descendência dos Yoruba de Ife. Seus contemporâneos
de culto afro-brasileiro no Brasil diziam dela que era Nago, quando queriam compará-la com outros praticantes do
Omoloko. Já veio feita da África, era de Nanan e foi feita por Sanguerabu, um africano que nunca pisou o solo brasileiro e
que era das terras de Egun (também conhecido
como Popo ou Je), povo de
língua da família Ewe, nas cercanias de Porto Novo, na
Baía de Benin, no litoral do antigo Daomé, atual
Benin.
Seu nome, de fato, parece ter sido Tayọ. Era chamada assim na fazenda em que trabalhou. "Ba"
talvez tenha sido agregado mais tarde, talvez nos meios religiosos
afro-brasileiros que freqüentou, e "Maria" foi o nome adotado em terras
brasileiras.
Batayọ era escrava doméstica e
trabalhava na cozinha; teve impaludismo (malária) e curou-se tomando chá de
fedegoso. Enquanto esteve doente e convalescendo, uma prima sua, não escrava,
muito boa cozinheira, foi ajudá-la nos serviços. Batayọ aprendeu muito com essa prima e se revelou com ótimas
qualidades, acabando por se transformar numa cozinheira tão boa quanto a outra.
A pedido da filha da fazendeira, Sinhazinha, Batayọ foi transferida para outros serviços domésticos,
dentro da casa grande. Nesse tempo, Sinhazinha namorava um rapaz de uma fazenda
vizinha e, passeando com ele a cavalo, caiu e machucou a cabeça. Ficou muito mal
e foi salva por Batayọ, mas esteve pelo resto da vida
sujeita a crises nervosas e, por isso, passou a ser cuidada pessoalmente por
Batayọ, a quem se apegou ainda mais.
Sinhazinha casou-se com esse namorado, do qual teve alguns
filhos, entre mulheres e homens. Um desses homens tornou-se major do Exército, e
mais tarde foi feito no santo por Batayọ, na futura
Roça dela, no morro de São Carlos, na cidade do Rio de Janeiro.
O marido de Sinhazinha, um dia, castigou demais um escravo,
mandando chicoteá-lo no tronco até quase à morte. O negro sobreviveu e depois de
recuperado matou o fazendeiro a facadas. Sinhazinha, prejudicada pelo seu estado
nervoso, ao saber do ocorrido, teve um colapso e morreu. Só que, antes disso, já
havia alforriado Batayọ, como recompensa pelo cuidado
que sempre tivera com ela, e depois com seus filhos, ajudando-a a criá-los; além
disso, ainda lhe comprara o terreno do morro de São Carlos, para que um dia
Batayọ tivesse onde morar, datando daí a posse desse
terreno.
Quando Sinhazinha morreu, por volta de 1.867, Batayọ tinha cerca de setenta anos. Muito velha para viver na fazenda, veio para a cidade e ocupou sua
terra no morro de São Carlos, fundando a Roça e iniciando sua vida de
mãe-de-santo.
Batayọ casou-se no Brasil, teve vários
filhos naturais e fez vários filhos-de-santo em sua Roça. Apesar de ter vindo
feita da África, aprendeu com africanos ex-escravos
muito sobre os fundamentos das religiões africanas praticadas aqui no
Brasil naquela época, especialmente o Omoloko, tanto
durante o período em que viveu na fazenda quanto em seu primeiro ano na Roça do
morro de São Carlos.
Batayọ teve vários
filhos-de-santo:
Leocádia, de Oşoọsi Arranca Toco,
iyalorişa.
Mané Bertolino, babalorişa que fez
Severino, de Şango, por sua vez babalorişa que fez Chico Diabo, ogan; Leba Jui, babalorişa e Manezinho, de Ogun, babalorişa. Manezinho fez Sizenando, de Yemọja, babalorişa.
Tuti, de Şango, babalorişa.
Heitor, de Şango, babalorişa que fez Saul, de Ogun,
babalorişa.
Joana de Yemọja, iyalorişa que fez Délia, de Ọya, iyalorişa, e Maria-Faz-Força, de Iyasan, iyalorişa, que fez Bibi, de Oşoọsi, iyalorişa, que fez Antoninho, babalorişa, de Oşoọsi Folha Seca.
Tomate, de Ogun, pejigan e filho natural mais novo de Batayọ, a quem ela ameaçava punir
com uma "coça" quando achava que ele não se comportava de maneira correta. Isso
foi presenciado por Fujẹko que, quando contava, ria,
visto que Tomate, por essa época, já havia passado dos 80 anos de idade –
segundo ele, mais de 84 anos.
Guiomar de Mungongo, de Oşoọsi, iyalorişa, que fez Miguelão, de Şango, ogan.
Mano Otávio, de Şango, babalorişa.
Roxinha, de Ọşun e Oşoọsi, iyalorişa, também filha
natural de Batayọ, que junto com Henriqueta completou as obrigações de Fujẹko.
Henriqueta, de Nanan, iyalorişa que junto com
Roxinha completou as obrigações de Fujẹko, de Şango Agodo, e lhe deu o deka, confirmando-o babalorişa.
Edgar Canivete, de Şango Alafin, babalorişa.
Guiomar de Şango de Ouro, de Şango, iyalorişa.
Tio Mina.
Jerônimo, de Şango.
Hildebrando, ogan.
O major, filho da Sinhazinha.
Maria.
Fujẹko de Şango
Agodo (Gérson Gentil de Azevedo).
Batayọ morreu aos 129 anos, por volta
de 1926, na Roça do morro de São Carlos, onde, além de ter sua Casa-de-Santo,
também morava. Anunciou sua própria morte algum tempo antes. Nove pessoas
presenciaram sua passagem: Samuel, "Seu" Chaves, Ricardina, Henriqueta, Mistura,
Tuti, Tẹko, Edgar Canivete e
Fujẹko, que tinha então 13 anos de idade. Para este
último, ela disse que, quando ele tivesse entre 36 e 39 anos de idade, alguém,
que não estava ali, iria cobrir sua casa de flores e
pétalas no chão, para receber o Santo dele, no momento em que ficasse pronto. De
fato isso aconteceu, quando Lili, que não era filha de
Batayọ, nem de sua descendência nem ascendência e que
sequer chegou a conhecer Batayọ, ficou encarregada
disso na casa onde Fujẹko mais tarde residiria, depois
de concluídas suas obrigações com Roxinha e Henriqueta.
Roxinha, sua filha natural e filha-de-santo, fez o aşeşe de Batayọ, tirou a mão-de-vumi dos filhos de Batayọ e
deu saída ao ẹbọ de seus Santos. Depois disso, a Roça do morro de São Carlos
esteve fechada por seis meses, ficando Roxinha como sua sucessora.
Vinte anos após morreu Roxinha, por volta de 1.946. Henriqueta ainda ficou na roça, mas os netos de Batayọ tomaram posse da propriedade e o Terreiro acabou.
Henriqueta fundou então um Terreiro em Bento Ribeiro,
na cidade do Rio de Janeiro, e morreu quatro anos após Roxinha, por volta de
1.950.
Os contemporâneos de Batayọ e seus
respectivos descendentes que praticavam o Omoloko no
Rio de Janeiro eram:
1. Dona Jeje, de Şango, iyalorişa; viveu perto de 100 anos.
2. Chica Boi, de Iyasan e Oşoọsi, iyalorişa; viveu perto de
70 anos. Fez: Orlandino da Cobra Coral, de Oşoọsi, babalorişa, que fez Orlando do Pó, de Omolu, babalorişa, Virgílio Cipozeiro, de
Oşoọsi, babalorişa, e
Mistura, de Ogun, alabe.
3. Mosinha, de Ọşun, iyalorişa, viveu perto de 100 anos; era filha-de-santo de
Tia Chica de Vavá, de Yemọja com Şango, que era negra
nagô, viveu perto de 90 anos e morreu em Abolição, Rio de Janeiro. Mosinha teve os seguintes filhos-de-santo: Cai n'Água, de
Oşoọsi e Ọşun, babalorişa; Ricardirna, de Oşala, iyalorişa, que fez Ana
Cachorro, de Iyasan, runsol
e Alexandre de Ọbaluaiye, babalorişa; Zé Spingéli, nome
provável José Gomes da Costa, de Şango, babalorişa, que fez Cecília, iyalorişa e Cacheado, de Iyasan,
babalorişa, que fez Lili do
Coqueiro, de Oşoọsi, iyalorişa, que fez Lourdes, iyalorişa, que abandonou o Omoloko
e passou para o Candomblé Angola, tornando-se filha de Néris. Antes, Lourdes havia feito Ildérica, de Ọbaluaiye e Yemọja, que no ínicio da década de
1.970 tinha uma casa de Omoloko em Sobradinho, cidade
satélite de Brasília.
4. Deawe, de Oşoọsi, babalorişa, filho natural de Batayọ, viveu perto de 100 anos. Fez Custódio Caravana, de
Oşoọsi Arranca Toco, babalorişa que viveu 72 anos.
5. Sarah, viveu perto de 100 anos. Fez os seguintes filhos-de-santo:
"Seu" Chaves, de Ogun Meje,
babalorişa; Samuel, de Şango, oşogun; Mano Elói, nome
provável Elói Antero Dias, de Şango, babalorişa; Benedito Perna Seca ou Benedito Espírito Mau, de
Iyasan, babalorişa.
6. Tião, de Şango, viveu 60 anos.
7. Dona Mariquinha, de Ọşun, iyalorişa. Fez: Tiana, de Ogun, iyalorişa; Porfírio, de
Şango, oşogun; Tia Cláudia,
de Iyasan Garuana, iyalorişa; Maria Capoeira, de Oşoọsi e Iyasan; Guaraná, de Şango, babalorişa, que fez Dona
Chica, de Ọşun, iyalorişa, que fez Tia Josefa, iyalorişa, que fez Maria Augusta, de Omolu, iyalorişa, que fez Sinhô,
de Oşoọsi, babalorişa, e
Djama de Alalu, de Oşoọsi e Iyasan, que abandonou o
Omoloko, passando para o Candomblé Ketu, filho de Fumotin, por quem
acabou sendo feito para Eşu Lalu.
8. Chica Velha (tronco vindo da Zona da Mata de Minas Gerais,
conhecida nessa época por "África Mineira"), iyalorişa, que fez Lili, de Şango e Ọşun, iyalorişa.
9. Eleotério, viveu perto de 110 anos, de Omolu, babalorişa, fez: Soféria do Soferão, de Osanyin, iyalorişa, que fez Sinhô
de Sete Pedras, de Iroko, babalorişa.
10. Chico Velho, de
Oşumare, babalorişa. Fez
Neném do Bambual, de Ọşun, iyalorişa, que fez Ercília de
Arruda, de Ogun e Ọşun,
iyalorişa.
11. Maria de Nanan Buruke, de Nanan, viveu 80 anos, iyalorişa,
que fez "Seu" Domingos, de Şango, babalorişa; Militão, babalorişa, que fez Paulo Demandista, de Oşoọsi, babalorişa.
12. Tio Chico, de
Ogun, babalorişa, irmão
natural de Batayọ.
13. Bakayọdẹ, morreu com 105 anos; era babalorişa de Şango e tinha um
irmão-de-santo, La Grossa, de Bẹsẹn, babalorişa.
14. Inhá, de Iyasan, iyalorişa, que fez: Ezinho, de
Ọşun, ogan; Raul, de Oşoọsi, alabe; Farrel, de Oşoọsi, alabe; Geraldo, de Ogun, ogan; Cláudio, de Şango das Almas,
babalorişa.
15. Tia Fé, nome
provável Fé Benedita de Oliveira.
Nota sobre a origem de
Maria Batayọ
Para tentar descobrir a origem de Batayọ, ou Tayọ, partiremos do
princípio muito provável que o nome dessa yalorişa
seja Yoruba e que Sanguerabu
seja um nome pertencente a uma língua da família Ewe.
Essa afirmação baseia-se também na história contada acima e no fato óbvio de que
Batayọ teria que ter convivido com Sanguerabu. Os dados conhecidos, aparentemente
inconciliáveis, dão a ela diversas origens, ou seja, Nago, Mina Je San, Bini e de procedência do
Porto da Mina. Há ainda o fato de ela ter nome Yoruba
e ser filha-de-santo de um babalorişa de origem Egun, povo também conhecido como Popo ou Je.
Pensamos que, sendo Batayọ Bini, ou descendente de Bini,
seria ela também Yoruba. Conforme já vimos, o povo
Bini se considerava descendente dos Yoruba de Ife, e muito
provavelmente, então, ela teria convivido com Sanguerabu, ou em terras Yoruba,
ou em terras dos Egun (ou Popo ou Je), ou em terras de
fronteira ou de vizinhança desses dois povos. No primeiro caso, sendo Bini, poderia ter nascido e se criado numa região de
fronteira, o que era uma possibilidade concreta, pois havia povos, entre eles os
Egun (ou Popo ou Je), todos de língua da família Ewe, que ocupavam a região litorânea da Baía de Benin, indo
desde o Gana, no sentido oeste-leste, até Badagri, onde se encontravam com os Bini, que habitavam a parte litorânea dessa região e que
vinham desde a Cidade de Benin, no sentido oposto, leste-oeste. Já os Yoruba localizavam-se no interior desse litoral.
Sendo ela de descendência Bini, teriam
seus antepassados migrado para uma região que fizesse
fronteira com Egun (ou Popo ou Je), mas que fossem terras
Yoruba e não terras Bini.
Essa região poderia ser a antiga Província de Colônia, que circundava Lagos, ou
até mesmo essa cidade da Nigéria. Hipótese também possível, visto que, nessa
cidade, no século XV, foi estabelecida uma dinastia Bini, tendo Lagos pago tributos a
Benin até 1830. Além disso, houve um intenso comércio de negociantes escravagistas portugueses entre essas duas
cidades.
Maria Batayọ poderia ter nascido
também em um distrito chamado Egun-Awori, na região de
Badagri, no antigo Protetorado Britânico, perto de
Lagos, onde a população era constituída de pessoas de Egun e de Awori. Awori é um povo que se estabeleceu em Lagos na época da
dominação Bini sobre essa cidade; neste caso, por
exclusão, não sendo Awori, pois isto não foi
mencionado como sendo uma de suas origens, ela seria Je, como conta sua história – Je
(ou Egun ou Popo), ou de
origem Yoruba e nascimento Je.
Outra origem provavel seria nas terras
dos Anago, ou Nago, região
no interior do antigo Daomé, que fazia fronteira com o
reino de Ketu, com as terras dos Egbado e as dos Awori no interior
e com os Egun (ou Popo ou
Je), no litoral. Ali existiam comunidades Egbado, de população majoritariamente constituída de uma
mistura de Anago (ou Nago),
e Egun (ou Popo ou Je), o que nos levaria a supor que ela poderia ser Anago (ou Nago). Essa hipótese
confirma mais uma vez sua condição Yoruba, sendo ou
não de descendência Bini, visto que, para os daomeanos, todos os Yoruba do
Daomé eram considerados Nago
(ou Anago).
Existia também um povo denominado Ahori, que talvez não tenha origem Yoruba mas que adotou língua e
cultura Yoruba e habitava as terras dos Anago, já na fronteira com os Ketu. Esse povo se autodenominava Dje. Os Egun (ou Popo ou Je) os conheciam, tanto
que os chamavam de Holi. Os Ahori não habitavam terras que fizessem
fronteira com aquelas ocupadas pelos Egun
(Popo ou Je), mas poderiam se relacionar com eles. Isso é
possível pelo fato de que tanto os Egun (ou Popo ou Je) das comunidades Egbado quanto os Ahori (ou Holi ou Dje) habitarem as terras
dos Nago (ou Anago). Se
Batayọ tivesse nascido aí, seria uma Dje, mas talvez fosse considerada também Yoruba pelos Egun (Popo ou Je), pelo fato de ser
Bini. Nesse caso também seria considerada Nago (ou Anago) por eles, por ser
Yoruba do Daomé. Assim Batayọ tanto seria Dje, Je, Nago, Yoruba descendente de
Bini ou Bini.
No Rio de Janeiro, no século XIX, período em que Batayọ chegou ao Brasil, os Yoruba
que desembarcavam na cidade procedendo de qualquer região da África ou do Brasil
eram chamados de Nago. Analisando por esse ângulo,
Batayọ poderia ser considerada Nago pelos seus contemporâneos no Brasil por ser mesmo Nago, sendo Yoruba do Daomé, ou por ser realmente Yoruba
de outra região africana. O fato de também ser considerada Mina pode ser
explicado por ela ter embarcado para o Brasil no Forte da Mina, que fica na
região conhecida igualmente como Costa da Mina, que abrange o Forte de São Jorge
da Mina, em Gana, e a Baía de Benin. Nesse caso ela seria conhecida como Mina-Nago, como eram denominados os Yoruba embarcados na Costa da Mina levados para o Rio de
Janeiro no século XIX.
Porém Batayọ era Mina Je San. Ela poderia ser Je (Popo ou Egun), conforme já vimos. Além disso, Dewae, um de seus filhos naturais, tem nome de origem
provável Je. Ora, já sabemos por que ela poderia ser
Mina. Mas para ser Je, aparentemente não poderia ser
Yoruba, mas seu nome é Yoruba. Poderia ainda ser considerada Yoruba mesmo se tivesse nascido em terras Je, caso fosse descendente de Bini, de acordo com o já visto. Nesse caso ela poderia ser
tida como Nago no Brasil, sem nenhuma contradição em
ser Mina Je.
O que concluímos é que não podemos ainda precisar o local exato
do nascimento de Maria Batayọ, talvez porque falte
desvendar o que seja San na palavra Jesan ou na frase Je San. Talvez, mesmo se descobrirmos, não possamos decifrar a
questão. No entanto, se não apresentamos nenhuma novidade para muitos leitores,
pelo menos afirmamos alguns pontos que consideramos como certos: Batayọ ou era das terras dos Nago
do antigo Daomé, atual Benin, ou era da região de
Lagos/Badagri na Nigéria – e, com certeza, era Yoruba
no sentido mais amplo da palavra.
História de Fujẹko
Fujẹko, Gérson Gentil de Azevedo,
nasceu na casa de número 12 na rua Cândido Benício,
que sai do Largo do Campinho e vai para Jacarepaguá, em Cascadura, Rio de Janeiro, em 25 de outubro de 1.913. Eram duas casas, a de número 10 e a 12, que ficavam ao lado
de um posto de saúde, e talvez já não existam. Era filho de Gelásio Gentil de Azevedo, baiano, e Graziella Bayão de Azevedo, sergipana, que faleceu quando Fujẹko contava com seis anos de idade.
Teve os seguintes irmãos: José Salvador Bayão de Azevedo, o Zequinha, ou Bayão; Moacir Bayão de Azevedo;
Lourdes Bayão de Azevedo; Haydê Bayão de Azevedo, que morreu
intoxicada aos quatro anos de idade; Zuleika Bayão de Azevedo e Jair Bayão de
Azevedo, gêmeos, sendo que Jair morreu com cerca de quatro meses de idade.
Segundo o próprio Fujẹko, desde muito
cedo, aos sete anos, ele bolou para o Santo; então, Dona Lúcia [vizinha de sua
família ao tempo em que Fujẹko era criança, no Largo
do Campinho, antigo beco Maria José], mãe de quatro filhos [Lara, Pedro, Jovem
(mulher) e Anenor], amiga da família em decorrência de
vizinhança, levou Fujẹko para o Terreiro de Tio
Abẹdẹ.
Fujẹko, porém, ali não ficou muito
tempo, indo para a Casa de Tia Chica de Vavá, de onde saiu para a casa de Batayọ, aí ficando até depois da morte dela, lá permanecendo
com Roxinha e Henriqueta.
Batayọ iniciou Fujẹko, seu trigésimo-sexto e
último filho-de-santo. O major, filho da Sinhazinha, foi quem custeou a
obrigação dele. Sua mãe-criadeira foi Maria de Lembra
Tudo. Roxinha e Henriqueta fizeram as obrigações
posteriores e Henriqueta lhe deu o dẹka – e quem
recebeu o seu Santo com flores, na casa onde então morava, foi Lili, isso entre os 36 e 39 anos de Fujẹko, entre 1949 e 1952, ou seja, quando Roxinha já tinha
falecido, e como predissera Batayọ.
Bakayọdẹ, de Şango, irmão-de-santo de Batayọ,
foi quem deu e ensinou o jogo de búzios para Fujẹko.
Após aprender e receber o jogo, a primeira pessoa para quem Fujẹko jogou foi o próprio Bakayọdẹ. Nesse jogo ele viu a morte de Bakayọdẹ.
Fujẹko, antes de ter Casa, ficou no
Terreiro de Ercília, de Caboclo Arruda, de Ogun e Ọşun, iyalorişa, durante 10 anos, provavelmete desde 1944, dois anos antes da morte de Roxinha
e seis antes da morte de Henriqueta, até 1954.
Embora tenha sido feito em casa de Batayọ, disse que aprendeu muito do que sabia com Custódio
Caravana, de Oşoọsi, babalorişa, filho de Deawe, filho
natural de Batayọ.
Fujẹko fundou sua Casa-de-Santo,
denominada Tenda Espírita dos Humildes, em 4 de dezembro de 1954, no Beco Rita
Vieira, hoje Rua Rita Vieira, número 40, em Madureira, Rio de Janeiro, então
Distrito Federal.
Fujẹko teve muitos filhos-de-santo;
entre os que receberam o dẹka, estão: Noêmia de Marabo, de Yemọja com Oşoọsi, com Terreiro em
Itapocu, Vitória, Espírito Santo; Tereza, de Iyansan e Şango, com Terreiro no
estado do Rio; Mozart, de Şango e Ọşun; Fátima, de Oşalufan; Regina
Lúcia Ruiz de Gamboa, de Ọşun; Palu, de Obaluaiye; Maria Antônia de Jesus Melo, de Ọbaluaiye; Maria Luiza; Jandira, de Oşoọsi; Mitze; Eiya, de Omolu; Ângela; Ruth de
Souza Castro, de Obaluaiye e Ọşun. Entre outros seus filhos feitos estão Pedro, de Şango,
pejigan; Ari Barreto de Oşoọsi, ogan; Odete, de Şango, jibonan; Eurico Jacy Auler, de Şango Agodo, oşogun; as mães-pequenas Hilda, de Ogun; Corina, de Şango; Ida, de
Omolu; Yeda; Bichinha; e
Angra, de Omolu e Iyansan;
Maria Alice, iyabase; além de Jorge (Dedei), de Obaluaiye, filho natural de Hilda de Ogun; Gamboa, de Oşoọsi, marido de Regina Lúcia; Afonso e sua esposa Dina; Jeová; Iara; e o marido de Maria Alice e Carmem.
Fujẹko casou-se com Ilka Machado de
Azevedo, nascida em 26 de junho de 1914, em 20 de maio de 1935; não teve filhos
naturais e morreu em 1º de junho de 1977.
Depois de sua morte, seu irmão Zequinha, de Ọşun, feito por Regina Lúcia, vendeu a propriedade e o
Terreiro acabou. Hoje, permenece fechado e vazio,
parece que sem qualquer uso ou destino.
História de Maria Antônia
Maria Antônia de
Jesus Melo nasceu em Fortaleza, Ceará, filha de Maria Marques de Oliveira
Melo, nascida em Jardim, Ceará, e Jairo Bandeira de Melo, do Rio Grande do
Norte. Era
católica e de família católica.
Quando nasceu tinha um irmão já adulto, por parte de pai. Teve mais quatro irmãos por parte de pai e mãe - três homens,
que morreram crianças, e uma irmã.
Mudou-se para o Rio de Janeiro aos 16 anos com a família, em 1948, para a
rua Coração de Maria, no Méier.
Casou-se em 1950, com João de
Oliveira, só no religioso, visto ser ele separado da mulher, e foi morar na rua
Sabino Ribeiro, em Irajá. Teve duas filhas naturais – Cleane de
Oliveira e Márcia Cristina de Oliveira. Maria Antônia começou a ficar doente
logo depois do casamento. Por causa disso, foi aconselhada por D. Raimunda,
médium atuante de um centro espírita kardecista e mãe
do chefe desse centro, Rodrigues, a consultar-se espiritualmente ali.
Depois disso, começou a freqüentar o local, chamado Centro Espírita Bezerra de
Menezes, em Cascadura. Porém, continuava sempre
doente, e, aconselhada por uma entidade do Centro, que lhe recomendara um Centro
que não fosse de mesa, mas que fosse de chão – um Terreiro–, foi à procura de
um.
Por sugestão de um colega de
trabalho (o marido de dona Mariquinha, zeladora do
Terreiro de "Seu" Pena Azul, em Osvaldo Cruz) de seu marido, começou a
freqüentar esse Terreiro, onde começou a ter as incorporações da Preta-Velha Tia Maria da Bahia, do Caboclo Aracati e de Ogun Beira Mar. Mas, mesmo assim, continuava bem doente e
emagrecendo. Depois de algum tempo, foi aconselhada por um guia incorporado do
Terreiro a procurar um Terreiro de Nação. Por isso, aconselhada por uma sua
conhecida da época, foi ao endereço, que era numa rua de Madudeira, procurar o tal Terreiro de Nação. Estava
procurando o endereço, quando uma mulher a quem pediu informação lhe disse que
aquele ela não conhecia, mas que conhecia um muito bom ali perto, e que ela
estava indo lá, para falar com o pai-de-santo, Fujẹko;
desse modo, ela dirigiu-se com a mulher à Tenda Espírita dos Humildes, Terreiro
de Aşẹ Omoloko, localizado à rua Rita Vieira, 40, cujo
babalorişa era Gerson Gentil de Azevedo, o Fujẹko, o qual, depois de atender à mulher e à filha dela,
fez um jogo para Maria Antônia, orientando-a no que deveria ser feito diante dos
problemas de saúde que ela estava enfrentando.
Isso já era outubro de 1966, ou
dezesseis anos desde que ficara doente e começara a procurar uma solução para
seus problemas. Foi logo recolhida e logo feito um bori, depois do que já começou a melhorar de suas doenças.
Iniciou-se assim sua vida religiosa naquele Terreiro. Suas filhas naturais
receberam também um bori na casa de Fujẹko. Depois de sete anos, em 1973, recebeu o dẹka e o levou, bem como os seus asentọ para sua casa, nessa época já na Estrada Intendente
Magalhães em Vila Valqueire, onde reside até hoje. Sua
mãe-pequena de feitura foi Hilda, de Ogun.
Em 1983, seis anos depois da morte
de Fujẹko, Mãe Maria Antônia fundou seu Terreiro,
Ile Aşẹ Ọbaluaiye, nos
fundos de sua residência. Desde então tem como filhos com dẹka Paulo de Oşala, com Casa em
Icaraí, Niterói, e Isa de Yemọja, com Casa em Ricardo de Alburquerque, Rio de
Janeiro.
Em junho de 1999, fez os asentọ do
Ileko, Casa de
Omoloko, em Brasília, e em novembro fez Cora, de Ogun,
Lígia, de Ọbaluaiye, Leni,
de Yemọja e Simone, de Iyansan, tendo como mãe-pequena sua filha natural Márcia, feita no Ketu.
Brasília (DF), abril de
2003
Fontes
Consultadas:
01 – História de Batayọ contada por
Fujẹko, na Tenda Espírita dos Humildes, em 15 de fervereiro de 1974.
02 – História de Fujẹko contada pelo próprio, na Tenda Espírita dos Humildes,
em 17 de janeiro de 1970.
03 – História de Maria Antônia contada
pela própria e por sua filha Márcia em abril de 2003.
04 – Fala,
Mangueira!, Marília T. Barboza da Silva, Carlos Cachaça e Arthur
L. de Oliveira Filho, Ed. José Olympio, 1980.
05 – A Linguagem Correta dos Orişa,
Benjy Ainde Kayode Durojayle Komolafe, Ornato José da Silva, Rio de Janeiro, 1978.
06 – The
Yoruba-Speaking Peoples of South-Western Nigéria,
Daryll Forde, Ethnographic
Survey of África, International African Institute,
London, 1969.
07 – The
Yoruba-Speaking Peoples of the Slave Coast of West Africa, A. B. Ellis, Anthropological
Publications, Oosterhout N.B., The
Netherlands, 1970.
08 – A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro – 1808 a 1850, Mary
C. Karasch, Companhia das Letras.
09 – História da Bahia, Luís Henrique Dias Tavares, UFBA.

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